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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mulher de Faces


Às 21h00, excluindo-se os costumeiros atrasos de um festival de teatro marcado pela numerosa programação, do dia 21 de julho, no Teatro Municipal deu início ao espetáculo “Mulher de Faces”, do grupo Asas do Invento, de Governador Valadares.

Com direção de Marcos Nauer, a peça conta a história, não de duas mulheres, mas de todas. As atrizes emprestam seus corpos para personagens dos mais variados, não mantendo nenhum deles por mais de uma cena.

Princesas, tecelãs, mulheres modernas, sonhadoras, mulheres, todas ligadas à existência fadada à sombra do homem. O texto também é variado. Logo na abertura nos deparamos com Adélia Prado em seu “Com licença poética”, passamos por Júlia Lopez de Almeida (Conto do Sino de Ouro), entre outros textos, até pousarmos na segunda metade onde impera a comicidade de textos rápidos e provocativos. Quase uma compilação das melhores piadas que bombardeiam nossas caixas de e-mail.

A trilha sonora é ao vivo, o que rendeu ao espetáculo a indicação de melhor trilha sonora na categoria drama nacional. Um excelente voz e violão executado por Lorena Arruda, que tem seu ápice ao cantar, à capela, The man I love (composição de Ira Gershwin, eternizada nas vozes de Billie Holiday e Sarah Vaughan), momento que marca a transição entre o drama e a comédia. Cena de arrepiar.

O trabalho de atriz de ambas está maravilhoso. Os olhos de Fabiani Torres na cena da brincadeira de esconde-esconde nos transporta à própria infância, sentimos o calor dos braços maternos; por outro lado, é impossível não rir do sapo de Nazza Amaral, ou se emocionar na cena do trovador que assassina a própria mãe, arranca-lhe o coração e o perde.

Talvez faltasse mais jogo cênico que unisse de alguma as atrizes. Que nos fizesse sentir num espetáculo único, e não em dois monólogos concomitantes ocupando o mesmo palco (sensação levemente alcançada no desenrolar da trama).

Um belo espetáculo, merecedor de mais indicações e alguns prêmios neste XI FACE.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pessoas ou coisas podem mudar o mundo, mas hoje nada aconteceu



Prêmio de Melhor Espetáculo Alternativo, Melhor Atriz (Ana Reis) e indicação para melhor Trilha Sonora, todos na fase nacional do XI FACE, o espetáculo Pessoas ou coisas podem mudar o mundo, mas hoje nada aconteceu vai navegar o imaginário dos espectadores por um bom tempo.

A história central poderia ser simples: um pai que abandona a mulher e uma filha ainda criança e, arrependido volta em busca de perdão. O estereótipo da família desestruturada dos tempos modernos é presente, mas teatralizada de forma apaixonante. A história central poderia ser simples...

Uma mãe completamente louca por organização, uma filha cheia de vontades e de personalidade forte, um pai volúvel e fracassado, e um quarto personagem - talvez o tempo ou a esperança, talvez nada disso ou ambos concomitantemente – conduzem a história. A desordem cronológica das cenas, a intensidade do trabalho de corpo (as repetidas quedas e autoflagelo da menina incomodaram a platéia, porém esta não as recebeu como violência, mas como caprichos pueris), a trilha composta de ruídos profundos que nos deixam a ponto de bala, tensos, ..., constroem um espetáculo envolvente e motivador.

- Essa história é minha!

Quaisquer dos espectadores poderiam, facilmente, se juntar à menina que afirma a posse da história. Qualquer um está fadado a sentir na pela o crash da estrutura familiar e se refugiar em lembranças dos tempos de outrora onde tudo era risos e afagos. “- Eu quero a minha lhama!”.

A lhama não era apenas “um camelo sem corcova que cuspia”. Era o pedaço do pai que ainda restava nela, a imagem da felicidade que ela desconhecia desde que ele partira. Ela não queria a lhama pura e simplesmente, queria que o encontro com esta a levasse ao pai. Ela tentava, mas hoje nada mudou.

Sem dúvida o melhor espetáculo em espaço alternativo do XI FACE, com um elenco bem ensaiado (ressalva para Sammer, ator que interpreta o pai, que quase é engolido pelos colegas de cena) e bem consciente corporalmente; não é difícil prever que no II PROFESTeatro que acontecerá em Congonhas-MG de 13 a 15 de agosto, assistiremos exatamente ao mesmo espetáculo, quase que milimetricamente coreografado.

Parabéns à trupe. Ver-nos-emos no solo dos Profetas de Aleijadinho.

domingo, 4 de julho de 2010

O MORTO VIVO


Neste fim de semana, 03 e 04 de julho de 2010, foi a vez da Companhia Katarriso de Teatro mostrar a que veio na esfera teatral valadarense, apresentando o espetáculo O Morto Vivo.

Uma comédia familiar por deveras atraente devido à natureza sutil de mostrar o cotidiano. Chafurdamo-nos na rotina a tal ponto que nossas existências dependem de protocolarmos até mesmo as tarefas mais exíguas do devir, do vir a ser parmenidiano. Não temos segurança naquilo o que é nosso se tudo o que nos cerca - objetos, bens, memórias, pessoas... - não nos vier com a posse comprovada através de documentos e papéis, que, infelizmente, valem mais que nossa palavra.

Heitor Ferreira (Jean Carlos), personagem principal da trama, não vivia! O contato carnal com sua esposa, os trejeitos puerís e a carência afetiva não diziam nada ante os persuasivos documentos apresentados à sua esposa pelo Secretário do Setor de Sinistro da Marinha.

- Seu marido está morto! Tenho este documento que assegura sua morte.

A burocracia é tão forte quanto nossa servidão e dependência dela. Quem somos hoje em dia? Existimos fora os números de nosso RG e CPF? Os padrões alfa-numéricos, que, em tese, deveriam nos trazer equivalência ante as esferas do poder público, seja municipal, estadual ou federal apenas nos condenam a abrir mão do bem mais precioso que recebemos: o livre arbítrio. Heitor não tinha escolha quanto ao seu destino, estava morto e apenas ressuscitaria se a burocracia que dantes o matou assim o desejasse.

Cenas rápidas, texto inteligente e afiado, piadas provocantes nada previsíveis, cenário suntuoso que reproduzia fielmente uma sala da classe média alta, desde o piso de taco aos quadros de Leonardo da Vinci; trilha sonora (que transitava dos Beatles à música unchained melody, eternizada como tema do filme Ghost de Jerry Zucker) e figurinos que abrilhantavam a estética que vinha da produção (nota-se pela qualidade do folder disponibilizado, contendo desde a discriminação dos personagens à trajetória da companhia, passando pela sinopse) que denota um amadurecimento profissional na produção artística local.

Peço atenção ao trabalho com os atores coadjuvantes. O rigor técnico da interpretação destes estava inversamente proporcional aos dos atores protagonistas. Salvaguardo o comentário à atriz Gislene Martins cujas falhas e insegurança é perfeitamente justificável pela tempestividade com que recebeu o papel. Abro parentese para a fatalidade que ocorreu com a atriz Ana Márcia que faria a personagem Glória Ferreira (protagonista, esposa de Heitor) e, no dia da estreia perdeu o pai.

Nossas condolências.

Luto real por falso luto teatral fica este trágico episódio como experiência para a companhia caracterizada por seus elencos numerosos e por suas plateias lotadas a sempre dispor de atores/atrizes no posto de coringa.

No mais, Parabéns pelo espetáculo! e esperamos ansiosos pela nova empreitada com o lendário personagem Ed Mort criado por Luis Fernando Veríssimo como paródia das histórias norte-americanas de detetives. Nos dias 25 e 26 de setembro a companhia volta com o espetáculo: Ed Mort: conexão nazista.

Não perderemos por esperar.

domingo, 27 de junho de 2010

Elas são do Balacubaco

O Teatro Atiaia recebeu, neste fim de semana, o espetáculo comédia "Elas são do Balacubaco" do grupo Balacubaco Produções.


O espetáculo conta a trajetória de duas personagens: Bia e Suelen Cristina em três momentos marcantes na vidade de qualquer ser humano (infância, adolescência e velhice). Neste enredo o universo feminino é abordado sempre de maneira cômica e descontraída.


Ponto positivo para a maneira como os atores: Douglas Leite e Leonardo Brambilha movimentam a troca de personagem. Entrar em cena "de cara limpa" e vestir, literalmente, o personagem afasta da platéia a ideia de dois homens de travestindo no palco (ideia esta quase que enraizada no subconsciente valadarense devido às recentes manifestações de "grupos" que o fazem), e aproximam a platéia do que acontece: dois atores interpretando personagens femininas.


A disposição dos adereços no palco deu-se de forma simples e sem exageros, seguindo a tendência do teatro essencial, fortemente difundido por célebres diretores como Denise Stoklos. Sem excessos nos adereços e figurinos, a trilha sonora deixou a desejar em alguns momentos.


A passagem de tempo e a troca de personagens dava-se ao som de "And all that jazz", com letra e música de Fred Ebb e John Kander respectivamente (consagrada pela versão cinametográfica do musical Chigado), e, numa visão geral destoou levemente a mensagem de duas mulheres brasileiras em suas fases de maturação. Não que a música seja inadequada, mas não foi a melhor escolha.


Outro ponto a se observar é a cena que descreve a adolescência das personagens que ocorre durante uma edição do GV folia. No teatro tudo pode! E não devemos nos ater à verdade, mas, sempre, à verossimilhança. Digo isto por ter sido citado, na peça, a presença do cantor Tomate no GV Folia deste ano (visto pelo abadá do dia de domingo), uma vez que este cantor, por motivos de incompatibilidade de cachets não compareceu nesta edição do mais famoso carnaval fora de época do interior mineiro. Detalhes à parte, a música muito alta nesta cena atrapalhou o desenrolar do texto, sobrepondo-se a algumas das "falas". E qualquer semelhança com o espetáculo Cócegas, trata-se por mera coincidência.


Em contrapartida, a terceira e ultima cena veio reaver o ritmo e a deliciosa comédia do espetáculo. A atuação de Douglas Leite como uma senhora da terceira idade foi encantadora, apoiado, a altura, pela sempre segura atuação de Leonardo Brambilha. Um show a parte esta cena. Não seria de se admirar que desta cena surgisse um maravilho espetáculo também de comédia. Só peço atenção ao São Pedro (personagem que aparece apenas por sua voz), pois, como foi citado, em cena, por Léo Brambilha: "Amador demais!". Nada que não se resolva com árduas sessões de ensaio.


Aplausos em pé para o texto lido no final do espetáculo. Moderno, modesto e hilariante!


Analisados os acertos e desacertos, um bom espetáculo! Engraçado e refrescante.

Fica a dica: De olhos bem abertos para os próximos trabalhos do Balacubaco Produções, que deve vir com o texto "As viuvinhas" ainda no mês de Agosto/2010. Vide arte abaixo: